sexta-feira, 1 de abril de 2011

Black Power Mixtape: filme mostra as duas faces da América no final dos anos de 1960 e começo de 1970

                                Angela Davis, dos Panteras Negras, durante um discurso

1967, Califórnia. A câmera mostra imagens de um dia feliz na praia. Gente deitada na areia, tomando sol e suco nas barracas. O repórter para em uma delas e conversa com o dono, um americano bem-humorado e feliz com a clientela que consome aos montes. Perguntado sobre o que acha dos EUA, responde algo como: “Aqui temos a oportunidade de trabalhar, de crescer. É só não ser preguiçoso e todos têm a chance de se estabelecer”. Corta. Na cena seguinte, um negro norte-americano é questionado pelo repórter sobre o que espera do futuro. “O que penso do futuro. Não existe futuro!”. É dessa forma, mostrando duas Americas bem diferentes, que começa Black Power Mixtape, documentário do cineasta sueco Göran Hugo Olsson, uma produção da TV Sueca que acompanhou, entre 1967 e 1975, o auge do Movimento Negro nos EUA e que ficou arquivado por 30 anos. O filme integrou a sessão de abertura É Tudo Verdade – 16ª Festival Internacional de Documentários, na noite da última quinta-feira, no Cine Livraria Cultura e entra na programação dos próximos dias. A mostra está em cartaz de 1 a 10 de abril em seis cinemas da capital paulista e traz um imenso panorama de documentários de todo o mundo.

Imagens inéditas

Durante anos, um boato incomodou os cineastas. Dizia a lenda de que a Suécia possuía mais imagens de arquivo sobre os Panteras Negras que os EUA. “Alguns anos atrás, eu estava vasculhando os arquivos da Televisão Sueca e descobri que era verdade”, revelou Olsson. Na tela, um desfile de personalidades que marcaram a luta pelos direitos civis dos negros: Angela Davis, Stokely Carmichael, Malcolm X e Martin Luther King. Cenas inéditas, dezenas de cenas, que revelam o lado humano e a inteligência política dos ativistas, o início do movimento dos Panteras Negras, as batalhas entre negros e policiais após o assassinato de Mather Luther King, as convenções com auditórios lotados promovidos pelos Panteras, as ideias e o contexto político e econômico americano da época, imagens das ruas do Brooklyn e do Harlem, mostrando uma população devastada pela violência, a discriminação, a falta de emprego e as drogas. Está tudo lá. São 96 minutos de perder o fôlego, um mergulho de cabeça dentro de um período que revolucionou a cultura afro na América e no mundo. Em uma rara cena, Angela Davis, uma das líderes dos Panteras, se encontrava presa por acusação de assassinato (injusta, segundo depoimentos). O repórter da TV Sueca perguntou porque os Panteras Negras se utilizavam da violência. Indignada com a pergunta, ela diz: “No bairro onde vivia, na minha infância, os homes tiveram que se armar e fazer a própria segurança nas ruas, porque constantemente pessoas se feriam por bombas que eram deixadas nas casas. Eu cresci escutando o som das bombas. Uma criança morreu e os pedaços de seu corpo se espalharam no chão. Meu pai tinha uma arma sempre à mão, caso fossemos atacados. È inacreditável quando me perguntam sobre violência, mostra a total falta de informação sobre os negros!”, desabafa. Black Power Mixtape é um retrato fiel da época. Pura informação. Difícil não sair do cinema arrepiado e reflexivo. Difícil dormir sem que aquelas imagens continuem passando diante dos seus olhos.

Serviço
Black Power Mixtape terá mais duas sessões na cidade. Confira a programação no site do Festival.

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