quarta-feira, 12 de maio de 2010

Virada Cultural e o 13 de Maio

Lendo a entrevista do programador da Virada Cultural, José Mauro Gnaspini, na edição da terça-feira última (11/05/2010) caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, dizendo que o rap adquiriu um estigma, e, por isso, foi limado da programação do evento, me deu uma estranha sensação de déja vù, de algo que não faz parte somente de um acontecimento isolado, mas de um histórico processo discriminatório. O lendário Nelson Triunfo conta que as rodas de hip hop no metro São Bento, nos distantes 1980, não eram simples reuniões, mas sim, uma resistência. A polícia sempre aparecia para descer o cacete naqueles caras que insistiam em mostrar, publicamente, sua cultura, sua origem. E foi assim também com o samba. Quantos bambas no começo do século não tiveram que fugir dos golpes de cacetete da polícia montada, que aparecia de surpresa e promovia um verdadeiro “espalha-roda”. Quantos violões e pandeiros foram dilacerados pela intolerância cultural? Quantos sambas não foram interrompidos e seus compositores não conseguiram voltar para a mesma harmonia? Pensando por esse ângulo, chegamos á conclusão que o episódio Racionais na Virada Cultural de 2007 não foi novidade. A polícia bateu, e, naturalmente, houve reação.
O Sr. Mauro disse que a culpa foi de todos: da polícia que bateu, dos Racionais que não souberam controlar o público (?) e do próprio público que não soube se comportar. Mas ele acaba de assinar sua parcela de culpa também, porque dizer não é mais fácil do que articular, dialogar (com os artistas, lideranças..) e chegar a um concenso. Deixou de fora o meio de expressão mais contundente e que melhor retrata a contemporaneidade urbana nesta cidade. Percebe-se, de cara, que este indivíduo nunca pisou na periferia. Desconhece os corações feridos por metro quadrado, cansados do enquadro desnecessário na volta do trabalho, na viela escura e suspeita, á procura de documentos ou, simplesmente, de um culpado sem culpa, só para lavrar um beozinho, para não voltar à delegacia de mãos abanando. O confronto entre polícia e público no show dos Racionais não foi de graça, foi o sintoma de uma doença chamada preconceito. Felizmente, o movimento Hip Hop é maior do que isso. Tem corpo. Tem alma. Tem atitude e cabeças pensantes. E vai durar muito mais do que o um mero cargo (com muito poder de decisão, mas apenas um cargo), que, certamente vai dançar quando o atual prefeito deixar a cadeira para o próximo...
E os focos de resistência, aos poucos, saem do gueto para o outro lado da ponte. Manos e Minas, Rádio 105, Revista Raça....
Outro aspecto a ser abordado é a necessidade de termos negros gestores de cultura. Negros produtores culturais, capazes de ocupar justamente cargos como esse, do Sr. Mauro, e apresentar uma visão multicultural, sem ranço, que atenda a todos em uma São Paulo tão diversa e grande. Quero lembrá-lo, senhor programador, que esse estigma da violência, nasceu da própria sociedade, das instituições, da mídia... um esforço coletivo que tenta nos excluir e nos empurrar para o nosso canto, tendo como fator motivante, a escravidão, que, na minha humilde opinião, não terminou com o advento da Lei Áurea, apenas mudou de fase (ou de face?). E, desta forma, fica a dica para todos pensarmos sobre o Treze de Maio: ela significa a liberdade ou a escravidão contemporânea?

Um comentário:

  1. Falou e disse... Me motivou a escrever algo também!!! A grande vantagem da internet é essa: uma trincheira mais "livre", onde podemos atuar... Fôgo neles!!!

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