sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Jeferson De exibe o filme "Bróder" no Festival de Berlim


Foi exibido nesta semana no Festival de Berlim o primeiro longa metragem do diretor Jeferson De. Em uma sessão quase lotada no Zoo Palast, na praça central da capital alemã, brasileiros e estrangeiros se reuniram para presenciar o que talvez seja um dos maiores acontecimentos para um cineasta negro - e brasileiro: a exibição de uma obra que discute as relações humanas existes dentro de um bairro periférico brasileiro, no caso, o Capão Redondo, em São Paulo. Não que esse tema já não tenha sido discutido e reunido em uma obra cinematográfica. Mas o longa Bróder é diferente. É a visão de dentro para fora. A visão de um artista negro, que conhece não somente a questão da violência, do tráfico de drogas, do crime.. é a visão, como já foi dito, das relações humanas. Só por esse fato o filme já é uma vitória. As filmagens mobilizaram personagens verdadeiros, gente que mora no próprio Capão e que conhece de perto o que é morar na periferia, as dificuldades, a realidade como ela é.

A fonte da pesquisa foi o próprio olhar, as lembranças das histórias vividas e contadas. Não foi somente fruto de teses de mestrado, da opinião de sociólogos. É a visão do povo como ele é. O longa recebeu até a benção do emblemático Mano Brown, dos Racionais. E as bençãos do povo do Capão, que espera ansiosamente as exibições em praça pública prometidas por Jeferson De. Apesar dos ares positivos que o longa pode trazer para outros cineastas negros que estão na batalha (e há muitos, isso é sabido), a língua ferina da elite não perdoa.

Em matéria publicada no Caderno 2, do jornal O Estado de São Paulo, o crítico de cinema Luis Carlos Merten diz que nos bastidores da exibição alguns espectadores viram o filme com desconfiança, por causa da participação da Sony, da Lereby (de Daniel Filho) e da Globofilmes. Classificaram o filme de suspeito devido aos nomes envolvidos na produção e também pelos atores globais, como Cássia Kiss e Caio Blat. A vigília ideológica está em todos os lugares e não perdoa nem um cineasta negro, que lança um filme seu em um dinossauro do mundo do cinema, como o festival de Berlim. Enquanto Jeferson era curtametragista estava tudo bem. Mas foi só figurar entre grandes marcas que já desconfiam do cara? Se ele não conquistasse parceiros assim, seria impossível tamanha repercurssão e exibir um filme que fala sobre algo mais além da violência nas nossas periferias em um festival como o de Berlim, que tem olhos e ouvidos para o mundo inteiro. Talvez o problema deles (os policiais ideológicos) seja mais difícil acreditar que finalmente um cineasta negro possa ter chegado lá. Possivelmente esse é o embrião da desconfiança. A mesma desconfiança que gerou as desconfianças em torno de Zezé Mota, Ruth de Souza, Milton Gonçalves, entre tantos outros que foram protagonistas de grandes filmes. Dizem eles que o fato de Bróder utilizar atores globais o torna um filme de mercado. E se for, qual é o problema? Qual é problema em um filme dessa natureza ser exibido para os intelectuais. O mais importante é que ele não é hermético (aqueles filmes cabeças que ninguém entende) e o povo pode se enxergar na tela. Há uma incongruência nesse pensamento. Para falar a verdade, um precipício. Talvez eles nunca entendam que o artista negro também precisa da indústria, e não somente, de programas sociais.