quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cotas para todos

O assunto “sistema de cotas nas universidades” ainda é um grande tabu para a sociedade brasileira, tanto na esfera política, quanto na universitária e até entre as pessoas comuns. Muitos são contra, por acharem a ação discriminatória, outros a favor, pois têm a opinião de que o Estado brasileiro possui uma grande dívida com a população negra, em detrimento da escravidão e da forma como ela terminou: famílias inteiras jogadas na rua, sem emprego, moradia, dinheiro, alimentação. Esse assunto funciona como torcida de futebol: você precisa escolher um lado. E o Babel Black é a favor das cotas. O conceito de “ação discriminatória” precisa mudar. O que as pessoas não entendem é que hoje a conquista das cotas é importante não só para a população negra, mas também para toda uma sociedade – inclui-se aí todas as raças e cores - há tempos à margem da educação no Brasil. Mas para chegar nesse nível, é preciso um início.

Na sociedade norte-americana os negros foram alfabetizados e as famílias ganharam o direito a um pedaço de terra no fim da escravidão, um incentivo para o início de uma nova fase em suas vidas (situação retratada, inclusive, no filme “A Cor Púrpura”, onde o ator Danny Glover vive um fazendeiro na época). Por aqui, a população afro-descendente não teve essa oportunidade: saiu das fazendas diretamente para as ruas, e depois, para os cortiços e as favelas. Fato que reflete diretamente na situação das camadas menos favorecidas hoje. Por isso as cotas são importantes. Ela precisa ser amplamente discutida por gente com representatividade nos diversos aspectos da sociedade, com conhecimento técnico, social, histórico. O que não é o caso do deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PP), que entrou com uma liminar proibindo o sistema de cotas para estudantes negros, índios, egressos de escolas públicas e filhos de policiais, bombeiros e agentes penitenciários mortos em serviço, nas universidades públicas. A medida atingiu como uma bomba a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), primeira a adotar o sistema.

Mas afinal de contas, quem é Flávio Bolsonaro? Vamos começar pela filiação, ou seja, de onde ele veio. Flávio é filho de Jair Bolsonaro, militar e político que ficou famoso por suas frases truculentas. Uma delas é histórica. Após receber um copo d'água no rosto por uma das lideranças do sateré-maués em uma audiência na Câmara dos Deputados que tratava sobre a questão indígena em Roraima. "Eu acredito em Deus. Sou católico. Mas é coisa rara ir à Igreja. Eu já li a Bíblia inteirinha, com atenção. Levei uns sete anos para ler. Você tem bons exemplos ali. Está escrito: "A árvore que não der frutos, deve ser cortada e lançada ao fogo". Eu sou favorável à pena de morte". (Em entrevista à Isto É Gente). Quanto ao deputado Flávio Bolsonaro, é o mesmo quem criou um projeto de lei propondo que a caveira do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e o uniforme preto do batalhão se tornassem patrimônios culturais do Rio de Janeiro. Acho que só por aí, dispensamos maiores apresentações.

Decisões sobre assuntos importantes não devem ser tomadas por apenas uma pessoa” (provérbio Chinês)

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